
Especialista explica como o masking afeta a saúde mental de adultos autistas e por que o diagnóstico pode representar um marco para o bem-estar e a qualidade de vida.
Receber um diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na vida adulta costuma ser mais do que uma confirmação clínica. Para muitas pessoas, é a oportunidade de compreender experiências acumuladas ao longo de anos, incluindo dificuldades sociais, desafios sensoriais e sentimentos persistentes de não pertencimento. A descoberta ajuda a reorganizar a própria história e oferece uma explicação para situações que, até então, pareciam desconexas.
De acordo com o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos com TEA e TDAH, ainda existe uma grande parcela de pessoas que passou a infância e a adolescência sem identificação adequada do transtorno, formando o que muitos especialistas chamam de “geração perdida” do autismo.
“É comum encontrarmos pacientes extremamente cansados emocionalmente. Durante décadas, eles tentaram se adaptar a padrões sociais que não correspondiam à sua forma natural de funcionamento. Nesse processo, desenvolveram o chamado masking, ou camuflagem social, um mecanismo utilizado para esconder características autistas e reproduzir comportamentos considerados neurotípicos”, afirma o médico.
Quando a adaptação constante gera sofrimento
Embora a camuflagem social seja frequentemente utilizada para facilitar a convivência em ambientes sociais, ela pode gerar consequências importantes para a saúde mental. Pesquisas recentes indicam que o masking está associado a exaustão emocional, dificuldades relacionadas à identidade pessoal, baixa autoestima, além de sintomas de ansiedade e depressão.
Esse fenômeno é especialmente observado em adultos que receberam o diagnóstico tardiamente e em mulheres autistas. Estudos apontam ainda que aproximadamente 25% dos adultos autistas relatam ter recebido diagnósticos psiquiátricos equivocados ao longo da vida. Entre as mulheres, esse percentual pode chegar a cerca de um terço.
Segundo o Dr. Trilico, muitos pacientes associam seus sintomas emocionais a anos de experiências marcadas por isolamento, exclusão social e situações de bullying sem que houvesse uma explicação clara para essas vivências.
“Muitos quadros de ansiedade e sofrimento psicológico estão relacionados ao impacto de viver por décadas com um autismo não identificado. O diagnóstico tardio permite compreender essa trajetória e oferece um novo direcionamento para o cuidado”, destaca o neurologista.
O papel do diagnóstico na construção do bem-estar
Apesar dos desafios que ainda existem para o acesso ao diagnóstico na vida adulta, a identificação do TEA pode trazer benefícios significativos. Entre eles estão o fortalecimento da autoaceitação, o aumento do autoconhecimento e a possibilidade de estabelecer conexões com outras pessoas que compartilham experiências semelhantes.
Além disso, o laudo pode favorecer adaptações importantes em contextos familiares, acadêmicos e profissionais, contribuindo para uma rotina mais compatível com as necessidades individuais.
Para o neurologista, a abordagem terapêutica deve priorizar qualidade de vida e suporte adequado, em vez de tentar modificar características próprias do indivíduo.
“Atualmente, sabemos que a Terapia Cognitivo-Comportamental adaptada para pessoas autistas é considerada tratamento de primeira linha para o manejo de condições associadas, como ansiedade e depressão. Paralelamente, é fundamental promover ambientes sociais e corporativos mais preparados para acolher a neurodiversidade”, explica Trilico.
Clareza para uma história que antes não fazia sentido
O diagnóstico de autismo na vida adulta não deve ser encarado como uma limitação. Pelo contrário, ele pode representar um ponto de virada importante, oferecendo compreensão sobre experiências passadas e ferramentas para uma vida mais alinhada às necessidades da pessoa.
Estudos mostram que muitos adultos autistas relatam melhora na qualidade de vida social ao longo do tempo, especialmente quando têm acesso ao autoconhecimento e ao suporte adequado.
“O diagnóstico não define quem a pessoa é. Ele ajuda a iluminar aspectos da própria trajetória que antes permaneciam sem explicação. Para muitos adultos, é o início de uma vida mais autêntica, com menos necessidade de camuflagem e mais respeito às próprias características”, conclui o Dr. Matheus Trilico.
Sobre o especialista
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818
- Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA);
- Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR);
- Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR;
- Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Mais conteúdos sobre TEA e TDAH em adultos estão disponíveis no portal do especialista:
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.
![]()