Dirigido por Anita Leandro, longa-metragem traz à tona o registro histórico de um grande encontro internacional pela anistia no Brasil, realizado em Roma, e reacende o debate sobre memória e justiça

Depois de conquistar os prêmios de Melhor Filme da competição Olhos Livres e do Júri Popular na Mostra de Cinema de Tiradentes, além do prêmio de Apoio à Distribuição no FID Marseille, ANISTIA 79, novo longa-metragem de Anita Leandro, chega aos cinemas brasileiros em 20 de agosto, com distribuição da Embaúba Filmes. O documentário parte de imagens inéditas da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Esses registros históricos do processo de anistia, de grande atualidade, convidam o espectador a julgar os crimes do passado e a elaborar uma memória da ditadura militar.

“Não se trata de um filme temático sobre anistia”, diz a diretora, “mas de um filme sobre a emoção de 11 pessoas que viveram esse processo, diante de imagens de arquivo onde elas aparecem”. Esses registros nos transportam para a plenária do Senado Italiano, que sediou a Conferência Internacional pela Anistia e as Liberdades Democráticas no Brasil, evento que reuniu centenas de exilados brasileiros e defensores de direitos humanos de diversos países, engajados na luta pela anistia e pelo fim da ditadura. Essas imagens, registradas por dois exilados, ficaram guardadas num porão, em Paris, por quase meio século, até que Anita Leandro encontrasse uma cópia do material em cassetes mini-DVs, sem som, em uma biblioteca da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, especializada em questões políticas da América Latina.

“Assistindo àquelas imagens mal digitalizadas, reconheci personagens importantes da resistência à ditadura militar”, conta a diretora. “A bibliotecária me colocou, então, em contato com Hamilton Lopes dos Santos, o autor do material de arquivo”. Exilado em Paris, durante a ditadura, Hamilton alugou uma câmera, reuniu uma pequena equipe e partiu para Roma, sem dinheiro e sem experiência em cinema, movido apenas pela vontade de deixar um registro do evento para as gerações futuras. Durante três dias, ele filmou a Conferência Internacional pela Anistia. São quase duas horas de material, rodado em 16mm, preto e branco, com um som cristalino, que oferece ao momento presente um balanço emocionante de uma história de muita luta.

ANISTIA 79 mostra esse material a pessoas que aparecem nas imagens e registra suas reações diante desses vestígios do passado. As filmagens são um diálogo entre passado e presente, que se prolonga na mesa de montagem. Graças a essa circularidade do tempo, o debate sobre a anistia desencadeado nos anos 70 chega até nós em toda a sua atualidade, chamando a atenção para a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores e militares responsáveis por crimes contra a humanidade. Para o jornalista Felipe Lott, do Le Monde Diplomatique, este filme, “não apenas descerra as portas do mundo, onde a canção foi decepada, como também permite a abertura do nosso porão interno, fechado a sete chaves”.

O novo longa de Anita Leandro dialoga diretamente com Retratos de Identificação (2014), onde ela reconstitui a trajetória da exilada Maria Auxiliadora Lara Barcellos, desde sua prisão e tortura até o suicídio, no exílio, em Berlim. Em ANISTIA 79, outra vítima da ditadura ocupa o centro da narrativa: Denise Crispim. As imagens de seu depoimento no Tribunal Bertrand Russell II, em 1974, abrem o filme. Presa e torturada quando estava grávida, Denise não consegue falar e seu testemunho é lido por um jurista. Quatro anos antes, seu marido, o combatente Eduardo Leite, conhecido como “Bacuri”, havia sido preso, torturado por mais de 100 dias e assassinado no DOPS de São Paulo por agentes do Estado. Décadas depois, Anita Leandro vai ao encontro de Denise para mostrar-lhe, não essas imagens do Tribunal, que ela já conhecia, mas outras, inéditas, atravessadas pela esperança no futuro, as imagens da Conferência de Roma, onde ela aparece ao lado da filha, Eduarda, uma linda criança, sorridente, que nasceu na prisão e encontrou refúgio no exílio, em Roma.

Depois de passar pela Mostra de Cinema de Tiradentes, pelo Olhar de Cinema, pela Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) e de ter a sua première internacional na competição do festival FIDMarseille, onde recebeu o Prêmio de Apoio à Distribuição (Distribution Support Award), ANISTIA 79 estreia nos cinemas em agosto, mês em que a Lei da Anistia completa 47 anos.

Sancionada em 28 de agosto de 1979 pelo último presidente da ditadura militar, general João Figueiredo, a Lei nº 6.683 permanece, até hoje, no centro dos debates jurídicos e políticos. A Lei da Anistia aprovada pelo Congresso concedeu o perdão aos que haviam cometido “crimes políticos ou conexos com estes”. Com base nessa redação, os militares se auto-anistiaram e estenderam o benefício da anistia a todos os agentes da repressão, responsáveis por prisões ilegais, tortura, assassinato e desaparecimento forçado, equiparando crimes de Estado aos crimes políticos praticados por seus opositores. Essa interpretação continua sendo contestada por organizações de direitos humanos e por especialistas, que exigem uma revisão da lei de anistia. Imprescritíveis, os crimes de tortura não podem ser objeto de anistia. Além disso, os crimes de desaparecimento forçado e de ocultação de cadáver são considerados permanentes, enquanto não houver esclarecimento sobre o destino das vítimas, podendo, portanto, ser investigados e julgados. Ao recuperar imagens inéditas do processo que antecedeu a aprovação da Lei da Anistia, o documentário reabre um debate que permanece urgente no Brasil de hoje.

SINOPSE

Roma, junho de 1979. Exilados brasileiros filmam a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira realizado fora do país. Quase meio século depois, essas imagens reacendem o debate sobre a manutenção do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores, mostrando que, no Brasil, o passado ainda não passou.

A DIRETORA

Anita Leandro é documentarista, pesquisadora e professora de cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa sobre os acervos fotográficos das agências de repressão da ditadura brasileira deu origem ao documentário Retratos de Identificação (2014), prêmio do júri oficial do CachoeiraDoc e Prêmio Arcoiris do Festival del Cinema Latino Americano de Trieste, também selecionado no FIDMarseille, États Généraux du Film Documentaire de Lussas, Forumdoc.BH, Mostra de Cinema de Tiradentes, CineOP e EDOC de Quito, entre outros festivais nacionais e internacionais. Desde 2006, ela desenvolve um trabalho de registro de narrações de trechos da obra de João Guimarães Rosa, no sertão mineiro. Foi coordenadora do mestrado profissional “Realização de Documentários e Valorização dos Arquivos”, da Universidade Bordeaux Montaigne, na França.

FILMOGRAFIA

Retratos de Identificação (2014), longa-metragem documentário

Riobaldo e Diadorim (2017), média-metragem documentário híbrido

Dão-Lalalão (2022), média-metragem documentário híbrido

Anistia 79 (2026), longa-metragem, documentário

COM A PARTICIPAÇÃO DE

Luiz Eduardo Greenhalgh,

Heloísa Greco,

Hamilton Lopes dos Santos,

Dirceu Greco Monteiro,

Branca Moreira Alves,

José Pedro da Silva,

Marijane Lisboa,

Jean Marc von der Weid,

Denise Leal,

Mariana Conceição Leal,

Denise Crispim.

FICHA TÉCNICA

Direção | Anita Leandro

Roteiro | Anita Leandro e Alice de Andrade

Produção | Maria Flor Brazil e Alice de Andrade

Fotografia | Bené Machado

Montagem | Anita Leandro e Isabel de Castro

Som | Glaydson Mendes

Produção Executiva | Maria Flor Brazil

Gênero | documentário

Duração | 105 minutos

País e ano de produção | Brasil, 2026

Empresas Produtoras | Montanha Russa Cinematográfica e Banda Filmes

Distribuição | Embaúba Filmes

SOBRE A DISTRIBUIDORA

A Embaúba Filmes é uma distribuidora especializada em cinema brasileiro, criada em 2018 e sediada em Belo Horizonte. Seu objetivo é contribuir para a maior circulação de filmes autorais brasileiros. Diferencia-se pela qualidade de seu catálogo, que já conta com mais de 50 títulos, investindo em obras de grande relevância cultural e política. A empresa também atua na exibição de filmes pela internet por meio da plataforma Embaúba Play, que reúne mais de 1.000 títulos entre curtas, médias e longas do cinema brasileiro contemporâneo.