
O projeto terá apresentações no Teatro Simões Lopes Neto e na AFASO, com participações desses importantes mestres brasileiros da cultura popular junto com Gutcha Ramil, Andressa Ferreira, Nina Fola, Loua Pacom Oulai e Guia Arte Rima
Em muitos contextos, Ngoma refere-se diretamente a um instrumento musical de percussão, o tambor. Mas vai além: desempenha um papel fundamental nas sociedades, não apenas como instrumentos musicais, mas como parte fundante da vida social de comunidades que cultivam a espiritualidade, a ancestralidade, a roda, os conhecimentos passados entre as gerações através da cultura popular como uma forma de existência, uma prática viva, coletiva e formativa. Uma brincadeira séria que promove aprendizado, autoestima e pertencimento, sem distinção de idade. Ngoma é cidadania, bem-estar, saúde mental, cultura e educação para crianças, jovens, adultos e idosos. E é esse universo inteiro que o projeto Ngoma pretende celebrar em Ngoma Festejos, evento que irá ocorrer na capital nos dias 17 e 18 de junho.
No dia 17, no Teatro Simões Lopes Neto, estarão os alunos do projeto com os educadores, em apresentação com as ilustres presenças da Mestra Martinha do Coco, Mestre Tião Carvalho e Mestre Churrasco, além de participações especiais do Grupo Afro-Sul de Dança e Música, representando a Mestra Iara Deodoro. Gutcha Ramil e Andressa Ferreira virão a Porto Alegre para participar desse grande momento. E o time se completa com Loua Pacom Oulai e Gui Arte Rima, antigo aluno do projeto. No dia 18, esse mesmo grupo, juntamente com os alunos, estará na AFASO, na Bom Jesus, em um evento para a comunidade escolar e familiares. “Buscou-se, para este espetáculo, trazê-los para uma apresentação em conjunto com as crianças e adolescentes do projeto. Estes mestres foram escolhidos por serem referência, em diferentes aspectos, do trabalho realizado pelo Ngoma junto às crianças e adolescentes do bairro Bom Jesus” afirma a equipe do Ngoma. E justamente por sua relevância, Mestre Churrasco, Mestra Martinha do Coco, Mestre Tião e a Mestra Iara, receberam artes impressas em painéis acústicos, criadas pela artista gráfica Carol Rosa, que estão dispostos na sala do Estúdio do NGOMA, construído a partir deste projeto da PNAB, na Bom Jesus.
A presença desses personagens tão relevantes da cultura popular no Ngoma Festejos se justifica por sua relação e vínculo de longa data com o projeto. A mestra Iara Deodoro, foi a primeira parceira desta iniciativa, acolhendo as atividades do Ngoma em seu ponto de cultura, o Odomodê, desde a sua origem em 2015. Tião Carvalho conheceu a capital gaúcha, e retornou repetidas vezes, através de oficinas e vivências promovidas pelo Ngoma em parceria com o grupo Três Marias, assim como Martinha do Coco, que já esteve anteriormente na sede da AFASO realizando atividades com as crianças, ainda no período em que Gutcha Ramil e Andressa Ferreira eram as gestoras. Churrasco é um mestre da Bom Jesus e referência não só para o Ngoma como para a comunidade da Bom Jesus de forma mais ampla.
Idealizado e fundado por Dessa Ferreira, em parceria com Gutcha Ramil, o projeto Ngoma realizou suas atividades em diferentes centros culturais de Porto Alegre/RS, iniciando em 2018 sua atuação na Associação das Famílias em Solidariedade (AFASO), na Vila Bom Jesus, onde passou a oferecer atividades de percussão, musicalização, dança e vivências ligadas à arte comunitária para crianças e adolescentes. Os coordenadores e oficineiros são artistas e músicos reconhecidos no cenário artístico da cidade de Porto Alegre/RS e vem desenvolvendo inúmeros projetos e parcerias. Os músicos Dona Conceição, Thiago Ramil, Bruno Amaral, Thayan Martins e Vitor Duarte são responsáveis por ministrar oficinas de percussão com colaboração pedagógica de Gutcha Ramil. O projeto contribui para a aplicação das leis que regulamentam o ensino de “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” na educação básica do Brasil (10.639/2003 e 11.645/2008).
A AFASO é uma OSC que atende mais de 130 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, oferecendo um espaço de convivência e cuidado, por meio de diversas oficinas como informática, música, percussão, esportes, canto, artesanato, formação para o mercado de trabalho, entre outras. A instituição, que atua no bairro Bom Jesus há 31 anos, atualmente atende metas vinculadas a Prefeitura de Porto Alegre por meio de convênio com a FASC, como o Serviço de Convivência e Fortalecimentos de Vínculos (SCFV) e o Trabalho Educativo (TE). O restante dos atendimentos, são viabilizados por meio da contribuição de padrinhos, parceiros e voluntários, e a participação em editais públicos e privados.
Sobre os Mestres convidados e homenageados:
O maranhense Tião Carvalho tem larga trajetória na cultura popular, iniciando ainda menino o aprendizado das danças e festividades populares. No final dos anos 1970, mudou-se para o Rio de Janeiro e integrou-se ao Teatro Ventoforte, de Ilo Krugli, como bailarino, ator, músico e compositor, convivendo e trabalhando com artistas como Klauss Viana, Sivuca, Paulo Moura, Hermeto Pascoal, Cássia Eller, entre outros. Nos anos 1980 e 1990, Tião Carvalho formou as bandas Mexe com Tudo e Mafuá, e, na sequência o Grupo Cupuaçu, do qual é diretor artístico até hoje. Além de dirigir os espetáculos do Grupo, Tião Carvalho coordena equipes de arte-educadores, ministra cursos de danças populares e lidera a Festa do Boi, evento que ocorre três vezes por ano na comunidade do Morro do Querosene, em São Paulo, bairro onde reside desde os anos 80. Por onde passa, Tião Carvalho estimula a formação de novos grupos de pesquisa e prática de danças populares. Foi a partir de suas aulas que surgiram os grupos Saia Rodada (Campinas), Retalhos de Cultura Popular (Londrina), Flor de Babaçu (Brasília) e Encaixa Couro (Belo Horizonte). Participou ainda da fundação do Grupo Nzinga de capoeira Angola, liderado pelos mestres Janja, Paulinha e Poloca, que vieram transmitir a sabedoria de Pastinha na capital paulista. Em reconhecimento ao importante trabalho social, cultural, artístico e educativo que desenvolve há anos na cidade de São Paulo, o maranhense de Cururupu Tião Carvalho recebeu, em 2004, o Título de Cidadão Paulistano, pela Câmara Municipal de São Paulo.
Martinha do Coco, nascida em Olinda, é artista e moradora do Paranoá (DF), para onde migrou aos 17 anos. Trabalhava, nesta época, como empregada doméstica para ajudar no sustento da casa e, em uma dessas experiências de trabalho, teve contato com uma musicista que percebeu o seu talento artístico e lhe ajudou a retomar seu amor pela música. Seu primeiro experimento musical foi uma banda com instrumentos reciclados quando trabalhou como gari. Martinha teve a oportunidade de iniciar sua carreira artística cantando samba de coco no grupo de percussão da Organização Tambores do Paranoá – TAMNOÁ e é uma das fundadoras do Ponto de Cultura Tambores do Paranoá. Vem desenvolvendo um trabalho autoral com as influências culturais da terra onde nasceu e cresceu – coco, maracatu e ciranda. Em 2013, Martinha do Coco recebeu do Ministério da Cultura o título de Mestra da Cultura Popular. Apresentou-se em importantes eventos e festivais pelo Brasil afora, como no show de comemoração do aniversário de 54 anos de Brasília, na semana de extensão universitária da UnB, no Festival de Música e Cultura Popular do Paranoá – FEMUPOP, o Festival Latinidades, o Festival de Cultura Popular de Bonito, em Goiás, Festival de Cultura Como Rosa para o Sertão de Sagarana, em Minas Gerais e o Festival de Rabeca de Bom Jesus, no Piauí. Mulher negra e periférica, Martinha do Coco é hoje referência de tradição para os moradores no Distrito Federal e promove todo ano, no Paranoá, o pré-carnaval de rua com o bloco Segura o Coco. Acaba de ganhar o Prêmio de Mestra da Cultura Popular da Secretaria de Cultura do DF.
Iara Deodoro (1956–2024) foi uma aclamada coreógrafa, bailarina e Mestra Griô. Radicada em Porto Alegre, ela foi uma referência fundamental na difusão da cultura de matriz africana e na consolidação da dança afro-gaúcha, unindo arte, educação popular e resistência antirracista. Com mais de 45 anos de dedicação à dança, Iara teve uma trajetória marcada por pioneirismo e forte impacto social: aos 18 anos, ajudou a fundar o Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomodê, espaço que coordenava e onde criou o célebre Grupo de Dança Afro-Sul. Dirigiu e coreografou mais de trinta espetáculos, além de atuar no carnaval gaúcho como porta-bandeira e coreógrafa. Formada em Serviço Social e pós-graduada em Educação Popular, sistematizou uma estética corporal e política. Sua metodologia tornou-se objeto de pesquisas acadêmicas em todo o país. Seu impacto foi tão profundo que, após o seu falecimento, projetos de lei na Câmara Municipal propuseram a instalação de uma estátua em sua homenagem na capital gaúcha. Seu acervo de movimentos e técnicas continua acessível ao público, servindo de material de estudo e preservação da cultura afro-brasileira.
O Mestre Churrasco (Jean Batista Cleber Teixeira dos Santos) é um dos capoeiristas e artesãos mais respeitados do Rio Grande do Sul. Desde a década de 1970, ele dedica sua vida a preservar a raiz educativa e cultural da Capoeira Angola e a criar berimbaus com a flora nativa. Começou na capoeira ainda criança nas ruas de Porto Alegre e é o fundador da Associação de Capoeira Angola Zumbi dos Palmares (ACAZUP) que defende a capoeira como uma manifestação essencialmente popular, educativa e comunitária. Além de seu trabalho histórico com crianças em situação de vulnerabilidade, ele é amplamente reconhecido como um berimbauzeiro. Dedica décadas a pesquisar e confeccionar instrumentos musicais artesanais, utilizando madeiras e cabaças locais para criar diferentes texturas estéticas e sonoras. Sua contribuição vai muito além das rodas de capoeira. Seu trabalho já foi tema de documentários, como o filme Berimbauzeiro, e de exposições fotográficas e virtuais promovidas por instituições como o Museu da UFRGS, que destacam a capoeira sob uma ótica visual e artística.
NGOMA Festejos
17 de junho, quarta, às 20h
Teatro Simões Lopes Neto – Rua Riachuelo, 1089 – Centro Histórico
Gratuito, com retirada de ingresso 1h antes do início do espetáculo na bilheteria do teatro.
NGOMA Festejos
18 de junho, quinta, às 18h
AFASO – Associação Famílias em Solidariedade – Rua Gilda Correa Vieira, 377 – Bom Jesus
Gratuito, apenas para a comunidade escolar e familiares