
Pioneira do metalcore brasileiro, estilo que combina elementos do heavy metal e do hardcore, a banda gaúcha It’s All Red, lança seu primeiro disco de inéditas em dez anos. No álbum homônimo, o grupo transforma em música um caso real de feminicídio vivido pela família do vocalista. O trabalho também traz colaboração com Humberto Gessinger
Após dez anos sem lançar um álbum de inéditas, o It’s All Red, uma das bandas pioneiras do metalcore no Brasil, retorna com um trabalho homônimo que coloca o peso do gênero a serviço de temas como violência, dor, pertencimento, guerras e perda. Entre os destaques está “Femme”, faixa inspirada em um caso real de feminicídio que atingiu a família do vocalista Tom Zynski e teve repercussão na imprensa gaúcha.
O disco também apresenta a inédita “Pertencimento, Pt. 1”, que integra uma composição dividida em duas partes e conta com a participação de Humberto Gessinger. A segunda parte, “Pertencimento, Pt. 2”, já havia sido apresentada ao público no início deste ano como single, também com participação de Gessinger e acompanhada de videoclipe.
A faixa de abertura, “Naad”, já mostra a ampliação sonora do projeto ao incorporar a cítara — instrumento utilizado a partir da experiência de Daniel Nodari, guitarrista do grupo, que foi professor de yoga e mantém conteúdos de relaxamento na internet. A presença do instrumento cria um contraponto inesperado à sonoridade pesada e estabelece a combinação entre peso e experimentação que atravessa o álbum.
“Não devemos aceitar a dor do mundo com resignação; este disco é a nossa recusa ao silêncio. É o nosso primeiro álbum em dez anos e nasce da urgência de colocar tudo pra fora. As parcerias com Humberto Gessinger amarram a ideia do disco sobre ‘pertencer’, agora com a inédita ‘Pertencimento, Pt. 1’. Tenho um orgulho imenso do nosso quarteto e dos colaboradores que criaram o trabalho mais rico da banda em timbres e texturas.”
— Tom Zynski, vocalista do It’s All Red
“Femme”: quando o luto vira denúncia
Entre as faixas mais contundentes do álbum está “Femme”, composição que nasceu de uma experiência de violência real: o feminicídio de uma prima segunda do vocalista, ocorrido no final de janeiro de 2026, no Rio Grande do Sul. O caso marcou profundamente a família e, na música, a experiência é transformada em denúncia, homenagem e elaboração artística do luto.
Ao mesmo tempo, “Femme” se conecta ao conceito de pertencimento que atravessa o álbum, mas pelo seu avesso: o pertencimento entendido como posse, como a tentativa de transformar uma mulher em propriedade ou a impossibilidade de pertencer plenamente quando sua existência autônoma não é tolerada.
“‘Femme’ é a letra mais pesada do projeto. Ela vem de uma dor visceral, inspirada no feminicídio que impactou a minha e tantas outras famílias este ano, em um país e um estado em alerta e sem ver o fim. A única resposta possível é a indignação transformada em arte”, afirma Tom Zynski.
A faixa ganhou um clipe dirigido por Bruno Carvalho, que partiu da narrativa visual presente na própria letra para construir uma atmosfera claustrofóbica de tensão e abuso.
“‘Femme’ é uma música que já possui um texto muito visual e narrativo, com frases que sozinhas já te transportam pra dentro de um universo claustrofóbico de tensão e abusos. Nosso trabalho foi escolher a frase certa para, a partir dela, revelar esse universo. Por mais que o verso seja citado apenas uma vez durante a música, a ideia de ‘reversal of love in front of her son’ veio como uma base, um norte narrativo para que equipe e elenco construíssem a estética”, explica Carvalho. “É uma música forte, com muita personalidade e com mensagem potente. Para nós, diretores, fica a gratidão pela liberdade que a banda nos deu para ajudar a construir essa história.”
Histórias de lugares distantes, histórias de pertencimento
O conceito de pertencimento atravessa o álbum por diferentes caminhos. Em vez de tratar o tema apenas a partir das experiências pessoais do grupo, o It’s All Red amplia essa busca para personagens, povos e territórios marcados por deslocamentos, conflitos e transformações históricas. As letras percorrem paisagens, guerras e reinos da Ásia e outros cenários distantes, criando histórias originais sobre identidade, violência, perda e o desejo de encontrar um lugar ao qual pertencer.
“Macau”, a primeira música autoral da história da banda em português, é um exemplo dessa abordagem. A faixa parte das Guerras do Ópio, ocorridas na China no século XIX, para construir uma narrativa sobre um território atravessado por disputas de poder, interesses estrangeiros e profundas transformações sociais. Dentro do universo do álbum, o episódio histórico funciona como uma maneira de olhar para as relações de pertencimento a partir do conflito: quem domina um território, quem é deslocado por ele, quem chega de fora e quem tem o direito de chamar determinado lugar de seu.
Essa perspectiva se conecta diretamente a “Pertencimento”, composição dividida em duas partes que aborda a experiência de imigrantes que chegaram ao Sul do Brasil em busca de um lugar para construir suas vidas. Assim, histórias situadas em épocas e territórios distintos passam a compartilhar uma mesma questão: o que significa deixar um lugar, chegar a outro e tentar construir uma identidade a partir da experiência de buscar — ou ter negado — um lugar de pertencimento.
A própria papoula, figura escolhida para a capa do disco, reforça essa conexão. A flor está historicamente relacionada ao ópio do conflito em “Macau”, mas também representa beleza e amor, assim como sofrimento, morte, perda e memória. Essa ambivalência funciona como uma síntese do álbum: beleza e violência, contemplação e peso, experiências individuais e acontecimentos históricos.
Gessinger e o metal
A colaboração com Humberto Gessinger aproxima universos que os rótulos costumam separar. O músico cita Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden e Motörhead entre suas principais referências ligadas à música pesada e afirma que, aos 60 anos de idade, as classificações de gênero já não dão conta da diversidade musical para ele.
Durante as gravações, Gessinger e a banda trocaram referências sobre diferentes gerações do metal, incluindo conversas sobre Opeth e Ghost. Para o guitarrista e baixista Rafael Siqueira, ouvir a voz do músico sobre uma base pesada foi emocionante: “Dá vontade de fazer um disco inteiro”, conta.
“Tento não deixar que rótulos atrapalhem meu caminho. Desde o início, o pessoal do rock me achava muito MPB e a MPB me achava muito rock. Gaúchos me achavam uma banda nacional e o Brasil me achava uma banda gaúcha. Conheci o It’s All Red através do Rafa e achei legal, ponto final”, comenta Humberto Gessinger.
Rafael trabalhou nas gravações da música “Sem Piada Nem Textão” e acompanhou a pré-produção do disco Revendo o que Nunca Foi Visto, de Gessinger, de onde veio a conexão entre os músicos.
Um retorno às raízes, mas sem limites
Musicalmente, o It’s All Red retoma sua identidade como uma das pioneiras do metalcore brasileiro, mas sem se limitar às fronteiras do gênero.
“Somos Metalcore. Fomos um dos pioneiros do gênero no Brasil, mesmo tendo influência de outros estilos em alguns trabalhos. Este álbum resgata com orgulho nossa identidade e remete mais ao estilo do que o Lead By The Blind, mas agora expandido com pitadas marcantes de Prog Metal e Death Metal e ainda além, como uma banda que nasceu do Metalcore e se permite até hoje agregar qualquer outro subgênero do Pop, Rock e Metal ao seu som”, explica Rafael Siqueira.
Entre as referências citadas pela banda estão Parkway Drive, Gojira, In Flames, Killswitch Engage, Sevendust e Trivium, além de nomes como Alice In Chains, Bring Me The Horizon, Death, Faith No More, Metallica, Nevermore, Nine Inch Nails, Sepultura e Tool.
Depois de uma década, o retorno do It’s All Red não se limita a reafirmar seu lugar na história do metalcore brasileiro. O novo álbum parte dessa identidade para explorar diferentes texturas, referências e narrativas, conectando experiências íntimas a episódios históricos e questões universais.
“Este trabalho homônimo não é contemplação calma; é o nosso disco mais denso e verdadeiro.”
— Tom Zynski, vocalista
Shows no Chile e na Argentina
Além do lançamento do novo álbum, o It’s All Red leva seu metalcore para a América do Sul em uma série de apresentações no Chile e na Argentina, em novembro. A agenda começa no dia 5, em Ramos Mejía, na Argentina, e segue por Ituzaingó (6), San Miguel (7 e 8), Santiago, no Chile (10), e Quillota, também no Chile (14). Os shows ampliam a presença internacional da banda gaúcha e levam ao público latino-americano a sonoridade que marca sua trajetória.
Sobre o It’s All Red
Formada em Porto Alegre (RS) em 2007, o It’s All Red é uma das bandas pioneiras do metalcore brasileiro. Ao longo de sua trajetória, construiu uma identidade marcada pelo peso, pela melodia e pela liberdade para incorporar diferentes vertentes do metal, mantendo-se em constante transformação.
A banda conta com três álbuns de estúdio anteriores — Vicious Words From The Heart (2007), The Natural Process Of… (2010) e Lead By The Blind (2015) —, além de uma série de EPs e singles. Entre os momentos mais emblemáticos de sua história está a abertura do show do Megadeth em Porto Alegre, em 2016, no Pepsi On Stage, quando foi selecionada pessoalmente por Dave Mustaine entre as bandas consideradas para a ocasião. O grupo também dividiu palcos com nomes como Cavalera Conspiracy, Paul Di’Anno, Ratos de Porão e Raimundos.
A formação atual reúne Tom Zynski (vocais), Rafael Siqueira (guitarra e baixo), Daniel Nodari (guitarra) e Renato Siqueira (bateria).
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