
Preparado o ano inteiro pelos moradores, em um engajamento coletivo que atravessa gerações, um dos maiores espetáculos do gênero no Rio Grande do Sul reúne quatro equipes e mais de 200 pessoas no palco, diante de 3,5 mil espectadores em uma única noite, no dia 19 de setembro.
São Jerônimo já conta os dias para a noite mais aguardada do seu calendário. Em 19 de setembro (sábado), o Ginásio Municipal se transforma no grande palco da Região Carbonífera para a edição 2026 do Festival de Artes Cênicas, ponto alto da tradicional Gincana Cultural do município. Para uma plateia de 3,5 mil pessoas no local e um público sem fronteiras na transmissão ao vivo pela internet, quatro equipes levam à cena cerca de duas toneladas de cenário, mais de 300 figurinos e 200 intérpretes. Tudo concebido, construído e encenado pelos próprios moradores da cidade.
A Gincana reúne quatro equipes filiadas à Liga Independente das Equipes da Gincana Cultural de São Jerônimo: Equi Medonhos, Equi Poupança, Força SK e Águia de Fogo. Herdeiro do antigo Carnaval local, o festival se firmou como uma montagem de grande porte, que combina teatro, dança, figurinos elaborados e efeitos especiais, preparada por quem vive em um município de pouco mais de 20 mil habitantes. A edição 2026 tem o patrocínio inédito da Farmácias São João, além das Lojas Lebes, parceira histórica do evento e rede que nasceu em São Jerônimo, e do Supermercado Bonato. A realização conta ainda com o financiamento do Pró-Cultura RS, por meio da lei estadual de incentivo à cultura.
No ginásio, a estrutura montada para receber o público reúne palco de 12 x 10 metros, telão de LED e sonorização especial. Nos bastidores, a dimensão é ainda maior: mais de 3 mil pessoas se envolvem nas atividades ao longo do ano. Em galpões espalhados pela cidade, costureiras, cenógrafos, músicos, atores e voluntários trabalham há meses em um empenho que passa de pais para filhos – e que se converte em economia. Estima-se que a cadeia de atividades ligada ao evento movimente mais de R$ 500 mil por ano, com reflexos no comércio, nos serviços e na geração de empregos temporários.
Do galpão ao palco: quatro temas relevantes que viram arte
Definida por sorteio, a ordem de apresentação abre com a Equi Medonhos e segue com Equi Poupança, Força SK e Águia de Fogo. Antes de subirem ao palco, os grupos apresentam seus enredos ao corpo de jurados. Nesta edição, os temas atravessam saúde mental, neurodiversidade, a relação com o tempo e a memória da América Latina – questões contemporâneas traduzidas em dança, teatro, luz e imagem.
Equi Medonhos | “Aurora das coisas invisíveis: entre asas e espelhos”
A Medonhos abre a noite com uma proposta que rompe com seus últimos trabalhos: uma travessia pelo universo da saúde mental. Entre dança, teatro, música e forte carga simbólica, o público segue Aurora por dores, medos, memórias e conflitos internos até reencontrar a própria identidade. “É uma jornada sobre tudo aquilo que sentimos, mas nem sempre conseguimos dizer. O espetáculo não fala sobre vencer a dor, mas sobre aprender a conviver com ela sem permitir que ela defina quem somos”, explica Márcio Maciel, vice-presidente da Equi Medonhos. “Não vamos contar apenas uma história: vamos construir uma experiência completa”. O palco se transformará junto com a personagem, revelando em cada elemento, aquilo que muitas vezes permanece escondido. “Os espelhos traduzem conflitos, as sombras dão forma ao que não conseguimos dizer e, aos poucos, tudo se transforma. No fim, aquilo que parecia fragilidade revela-se força: uma possibilidade de se libertar das próprias amarras e reencontrar a coragem de ser quem realmente somos”, destaca. Presidida por Miguel Rodrigues, a equipe tem Indaiah Taisi Vargas como rainha e Airton Marino de Souza Jr. na coreografia.
Equi Poupança | “Singular”
O que acontece quando o som, as texturas, as relações e o próprio tempo são sentidos de outro modo? A Equi Poupança conduz o público pelo cotidiano do autismo em uma jornada poética, feita de metáforas visuais, na qual a resiliência se sustenta no amor incondicional de quem acompanha essa rotina todos os dias. Cada cena ecoa a realidade das mais de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil e sua busca diária por autorregulação. Sob direção de Jey Ribeiro, com trilha que vai do rock clássico ao pop épico, a montagem tem vocação educativa e defende empatia e respeito ao ritmo do outro: “mundos que não precisam de conserto, mas de descoberta”. A equipe é presidida por Felipe Martins, com Sarah Schwarz como rainha e Guilherme Steffler na coreografia.
Força SK | “O tempo do agora”
Relógios, agendas, prazos, urgências. Na velocidade do cotidiano, o tempo deixa de ser vivido e passa a ser perseguido. E é esse desencontro que a Força SK leva ao palco, em uma jornada sobre presença, liberdade e a redescoberta do ritmo próprio da vida. A montagem fecha uma trilogia iniciada nas edições anteriores, com as raízes e a religiosidade e aprofundada nas fronteiras entre inteligência artificial e sensibilidade humana. Agora, a equipe chega ao presente com uma pergunta que não é mais sobre relógios, mas sobre nós: ainda sabemos reconhecer o instante em que a vida acontece? Comandam o grupo o presidente Diego Machado, a rainha Rafaella Mazui e o coreógrafo Igor Pretto.
Águia de Fogo | “Grito de Liberdad”
“Toda terra guarda uma memória. Toda memória guarda uma ferida. E toda ferida pode florescer.” Com essa premissa, a Águia de Fogo encerra a noite em uma criação de forte inspiração latino-americana: ao longo dos séculos, tentaram domesticar uma terra indomável – mudaram os invasores, os discursos e as promessas, e a ferida permaneceu, sempre em novas formas. “Grito de Liberdad” convida o público a percorrer as veias abertas de um continente que nunca deixou de pulsar e a descobrir que é do sangue ainda em circulação que nasce a força para imaginar outro futuro. A equipe tem Jair Santos (Juninho), na presidência, Laysa Mary como rainha e o trio Vinicius Flores, Karen Rodrigues e Larissa Sanguiné na coreografia.
Um ingresso que alimenta, um palco que se reinventa
O orçamento do festival não se esgota em patrocínio e leis de incentivo. Boa parte dos recursos sai das próprias equipes, que promovem bingos, feijoadas e rifas ao longo do ano para bancar suas produções; uma engrenagem que manteve o evento de pé muito antes de qualquer apoio institucional.
A lógica comunitária se estende à bilheteria. Mediante a doação de um quilo de alimento, o ingresso de arquibancada custa R$ 20, metade do valor da entrada inteira; a meta é reunir cerca de uma tonelada de itens, que serão destinados à assistência social do município. A sustentabilidade completa o objetivo: os grupos reaproveitam materiais e estruturas de edições anteriores e devolvem função a itens recicláveis, que ganham nova vida em cena.
Mais do que competição, um elo de pertencimento
A disputa entre as equipes é apenas a superfície. Nos galpões, a mobilização envolve famílias inteiras e faz do festival uma escola de convivência, cooperação e cidadania. A repercussão ultrapassa as divisas do município: moradores de toda a Região Carbonífera e de outras cidades gincaneiras do Estado se somam às equipes e se integram à comunidade a cada edição. “O Festival de Artes Cênicas representa muito mais do que um evento cultural para São Jerônimo: faz parte da identidade da cidade, um espaço de encontro, memória e pertencimento, onde diferentes gerações sobem ao palco para contar histórias e se reconhecer nelas. Para 2026, a expectativa é viver mais uma edição que emocione e surpreenda, com trabalhos de qualidade artística e algo a dizer, criando uma experiência para quem estiver assistindo, tanto no ginásio e quanto no YouTube, fortalecendo o Festival”, projeta o presidente da Liga Independente das Equipes da Gincana Cultural de São Jerônimo, Márcio Maciel, que também é vice-presidente da Equi Medonhos.
Entre a expectativa de lotar o ginásio e o desejo de crescer a cada edição, o Festival de Artes Cênicas reafirma São Jerônimo como polo de criatividade e engajamento social, e mantém viva uma herança que se transmite em casa, no galpão e no palco, transformando paixão em patrimônio.
SERVIÇO
O que: Festival de Artes Cênicas de São Jerônimo
Quando: 19 de setembro de 2026 (sábado)
Onde: Ginásio Municipal de São Jerônimo – Av. Rio Branco, 366, Centro
Abertura dos portões: 19h
Apresentação do CRAS: 20h
Início das apresentações das equipes: 21h
Ordem de apresentação (definida por sorteio): Equi Medonhos, Equi Poupança, Força SK e Águia de Fogo
Ingressos – vendas diretamente com as equipes: R$ 20 (solidário, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível na entrada do evento) e R$ 40 (valor inteiro, arquibancada).
Transmissão ao vivo: youtube.com/@
Realização: Liga Independente das Equipes da Gincana Cultural de São Jerônimo
Patrocínio: Lojas Lebes, Supermercado Bonato e Farmácias São João
Financiamento: Pró-Cultura RS – Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (Sedac RS)
Instagram oficial: @festivalartescenicas