
Segundo dia do evento reuniu especialistas para discutir saúde emocional, competências humanas, criatividade e os desafios dos líderes diante das transformações nas organizações
A tarde desta quinta-feira (1º), segundo dia do CONGREGARH, no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre, contou com cinco palestras. Promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS), o evento, que acontece até sexta-feira (2), reúne lideranças e especialistas para discutir os caminhos do trabalho, das organizações e das relações humanas diante das transformações do presente e dos desafios do futuro. Com o tema “Quem Imagina o Futuro?”, a 19ª edição propõe uma reflexão sobre a capacidade de imaginar novas possibilidades e, principalmente, sobre o papel das pessoas na construção dos futuros que serão vividos.
A primeira palestra trouxe o músico formado pela Berklee College of Music, pós-graduado em neurociência pelo Sírio-Libanês e fundador da Damaru Terapia Sonora, Rafael Cameron, que conduziu a palestra “Pausa para Ser: Experiência com Técnicas de Terapia do Som”, propondo aos participantes uma experiência imersiva para ampliar a percepção, promover a regulação emocional e criar espaços de pausa em meio ao excesso de informações e estímulos da vida contemporânea.
Durante a atividade, Cameron destacou que pensar o futuro exige flexibilidade cognitiva e imaginação para encontrar novas alternativas diante de desafios e conflitos. A partir de técnicas de terapia do som, o palestrante mostrou como diferentes estímulos sonoros podem influenciar a forma como as pessoas percebem e respondem ao ambiente. A experiência incluiu exercícios práticos e uma imersão sonora, reforçando o potencial do som como recurso associado à saúde emocional e ao bem-estar.
Na sequência, o consultor, diretor executivo do Centro de Experiência e Serviços da Universidad Adolfo Ibáñez e sócio da Human X, Claudio Lopez, apresentou a palestra “Presente e Futuro da Gestão de Pessoas: um Grande Desafio”. O especialista abordou as transformações provocadas pela tecnologia, ressaltando que o principal desafio para as organizações não está apenas nas novas ferramentas, mas na maneira como as pessoas e as empresas aprendem a lidar com elas. Também chamou atenção para a escassez de talentos, a importância da cultura organizacional e os impactos da liderança nas relações de trabalho.
Ao tratar dos desafios atuais, Lopez destacou ainda questões como o baixo nível de engajamento, o estresse e a necessidade de repensar processos e práticas de gestão. Segundo dados apresentados pelo palestrante, 32% dos trabalhadores brasileiros estão comprometidos com seu trabalho. “Isso é um número muito baixo, apesar de ser um pouco acima da média na América Latina, que é de 30% e, no Chile, de 19%”, salientou. Para ele, organizações precisam superar práticas que priorizam o controle em vez de habilitar pessoas, além de evitar processos que não geram resultados concretos.
Na sequência, a futurista, fundadora da Seek Futures e especialista em Strategic Foresight, Letícia Setembro, na palestra “O Futuro do RH”, falou que o comportamento humano ainda é um dos principais fatores que podem travar mudanças nas organizações. Ao discutir o avanço da IA no RH, Letícia destacou conceitos como inteligência preditiva de talentos e a chamada “dupla inteligência”: mais do que saber utilizar ferramentas de IA, é preciso desenvolver a capacidade de pensar criticamente ao delegar tarefas às máquinas.
A palestrante também chamou atenção para os desafios relacionados às competências humanas e à tomada de decisões. De acordo com os dados apresentados por ela, 80% dos profissionais de RH apontam dificuldades para encontrar competências humanas básicas. Letícia ressaltou ainda que decisões que envolvem negociação e outros aspectos complexos não podem ser simplesmente transferidas para a tecnologia. Ao abordar a sobrecarga de informações, falou sobre a chamada “violência neural” e defendeu a neuroperformance como uma competência do futuro. Para ela, aprender a se autorregular, desenvolver autopercepção e construir uma inteligência temporal são habilidades fundamentais para líderes diante de um ambiente de mudanças constantes. “O futuro do trabalho começa no estado de quem vai criá-lo”, afirmou.
Na sequência, a palestra “Sensibilidade e Arte para Liderar”, da CEO da Sonata Brasil, phd em administração e especialista global em inovação, liderança e sustentabilidade, Soraia Schutel, trouxe uma reflexão sobre a dimensão humana da liderança em um mundo complexo, incerto e cada vez mais digital. A especialista destacou que os tradicionais manuais de gestão não são suficientes para responder aos desafios atuais e defendeu que o futuro pode ser digital, mas precisa continuar sendo humano. Para isso, criatividade, imaginação, sonho, sensibilidade e autoconhecimento ganham importância. Ao aproximar liderança, filosofia e arte, Soraia ressaltou o papel dessas áreas no desenvolvimento da clareza mental e da compreensão sobre o que diferencia os seres humanos. A cultura organizacional, segundo ela, também é construída a partir de rituais, enquanto a arte recupera uma linguagem simbólica fundamental para a experiência humana.
Liderança ganha protagonismo diante da escassez de mão de obra e de cenários de incerteza
Os desafios do mercado de trabalho e o papel das lideranças diante de um cenário de constantes transformações foram tema da participação do diretor da Fiergs e presidente do Comitê de Gestão de Pessoas da Abicalçados, Giuliano Fornazier, e do CEO da Unimed Porto Alegre, Leandro Firme. O painel foi mediado pela psicóloga, jornalista e host dos podcasts RH+Líder e Âncora de Carreira, Sabrina Thomazi. Segundo Fornazier, desde 2020 as empresas vivem uma sequência de crises, em um movimento permanente de “apagar incêndios”. O executivo destacou ainda o impacto da chamada “pejotização” e do crescimento de plataformas de aplicativos sobre a disponibilidade de profissionais para a indústria. “É uma disputa muito desigual com a indústria”, afirmou, ressaltando que as empresas deixam de faturar muito pela falta de mão de obra. Para ele, embora os ambientes de trabalho tenham evoluído, os desafios enfrentados pelas lideranças se tornaram mais complexos, reforçando o papel estratégico do RH no desenvolvimento e cuidado com os líderes.
Na sequência, Leandro Firme compartilhou experiências de sua trajetória profissional para discutir como as organizações podem lidar com situações imprevisíveis. Ao relembrar sua passagem pela administração de um hospital público na Baixada Santista, pela gestão do Hospital São Lucas da PUCRS durante a pandemia e, mais recentemente, pela Unimed Porto Alegre durante as enchentes no Rio Grande do Sul, destacou que momentos de crise exigem clareza sobre os caminhos a seguir. “Em momentos de incerteza é preciso termos clareza para onde vamos”, destacou. Para Firme, a escassez de mão de obra também atinge diferentes setores e ampliou a competição entre as empresas, que hoje enfrentam disputas não apenas dentro de seus segmentos.
Firme também defendeu uma nova compreensão sobre a relação das pessoas com o trabalho, destacando a importância de ambientes que permitam equilíbrio e descompressão. Nesse contexto, a liderança precisa ser continuamente repensada, com destaque para a escuta ativa como ferramenta para compreender diferentes necessidades e percepções das equipes. Na Unimed Porto Alegre, segundo ele, essa visão se traduz em iniciativas voltadas ao bem-estar dos profissionais. “Decidimos cuidar de quem cuida”, resumiu, reforçando que desenvolver lideranças e construir ambientes mais seguros e saudáveis são elementos fundamentais para enfrentar os desafios do futuro.