
Das guerras medievais às disputas por territórios, idiomas e influência cultural, os quatro semifinalistas têm histórias que se cruzam e ajudam a explicar parte da formação do mundo contemporâneo
As últimas partidas da Copa do Mundo de 2026 colocam frente a frente países que têm antigas relações fora dos campos de futebol. França, Espanha, Inglaterra e Argentina carregam histórias que se cruzam há séculos em guerras, disputas territoriais, processos de colonização, migrações e intercâmbios culturais. Embora hoje os confrontos aconteçam dentro das quatro linhas, muitas dessas relações começaram muito antes de o futebol sequer existir.
Seja definindo fronteiras, exportando seus idiomas para outros territórios, influenciando a paisagem urbana em outros lugares ou, simplesmente, deixando marcas duradouras em diferentes regiões do planeta, os quatro países ajudaram a definir o mundo como o conhecemos. Em alguns momentos foram adversários. Em outros, parceiros comerciais, inspiração cultural ou mesmo o destino de milhões de imigrantes.
De acordo com o mestre em Educação e professor de História do Curso Positivo, Renato Mocellin, as seleções que disputam o título de melhor do mundo representam muito mais que tradições esportivas. “Quando observamos França, Inglaterra, Espanha e Argentina, estamos olhando para países cujas trajetórias se cruzaram em diversos momentos decisivos da história. O futebol acaba funcionando como um símbolo contemporâneo de relações que começaram séculos antes, envolvendo disputas por território, influência política, comércio e identidade nacional”, afirma.
Guerras, impérios e a disputa pelo poder
Durante a Idade Média, franceses e ingleses protagonizaram a Guerra dos Cem Anos (1337–1453), conflito que ajudou a consolidar as identidades nacionais de ambos os países e redefiniu o equilíbrio de poder na Europa. Outras disputas vieram ao longo dos séculos seguintes. Enquanto isso, a Espanha construía um dos maiores impérios da história. “A partir das Grandes Navegações, esse país expandiu seus domínios pelas Américas, levando consigo o idioma, a religião católica e modelos administrativos e urbanos que ainda influenciam diversos países latino-americanos”, detalha Mocellin. O domínio espanhol sobre os mares passou a ser desafiado pela Inglaterra, que ampliou seu poder naval e comercial, consolidando as bases do império que, séculos mais tarde, seria o maior do mundo.
França e Espanha também travaram sucessivos conflitos pela hegemonia europeia, alternando períodos de guerra e alianças políticas. A Argentina entra nessa trajetória por outro caminho. Colônia espanhola até o início do século XIX, conquistou sua independência em 1816 e, nas décadas seguintes, recebeu milhões de imigrantes europeus, principalmente espanhóis, italianos, franceses e britânicos. Esse fluxo migratório ajudou a moldar a identidade do país e explica muitas das influências culturais presentes até hoje.
Já no século XX, a relação entre argentinos e britânicos ganhou um novo capítulo: a Guerra das Malvinas, que começou em 1982 e marcou profundamente a história dos dois países. Quatro anos depois, eles se encontrariam em partida válida pela Copa do Mundo de 1986, com a controversa vitória argentina liderada por Diego Maradona. Para Mocellin, os confrontos esportivos são apenas a face mais recente de uma relação construída ao longo de séculos: “Esses países estiveram envolvidos em guerras, processos de colonização, movimentos de independência e transformações que redesenharam fronteiras e influenciaram a política mundial. O futebol acaba resgatando, de forma simbólica, parte dessa memória histórica”.
Idiomas que atravessaram continentes
As disputas também aconteceram de maneira menos visível, mas igualmente duradoura por meio da linguagem. Três dos idiomas mais influentes do planeta atualmente têm origem justamente entre os quatro finalistas. Durante séculos, o francês ocupou o posto de idioma principal nas relações internacionais. Não à toa, esse segue sendo o idioma da diplomacia internacional, além de ser o idioma oficial em dezenas de países. Por sua vez, o espanhol espalhou-se por praticamente toda a América Latina em razão da colonização espanhola e tornou-se uma das línguas mais faladas do mundo. Mais recentemente, o inglês consolidou-se como idioma predominante dos negócios, da ciência e da tecnologia.
E embora compartilhe o espanhol com outros países latino-americanos, a Argentina desempenha um papel importante na difusão de uma identidade linguística própria, marcada por expressões, sotaque e forte produção cultural. O professor de Geografia do Colégio Positivo, Eduardo Berkenbrock Lopes, lembra que os idiomas também são instrumentos de influência. “Quando uma língua se expande, ela leva junto formas de pensar, modelos educacionais, referências culturais e relações econômicas. A presença do inglês, do espanhol e do francês em diferentes continentes é resultado de processos históricos que continuam produzindo efeitos até hoje”, explica.
Cidades que contam histórias
Esse forte intercâmbio cultural, econômico e de ideias também deixou seu registro na arquitetura e na organização das cidades. Buenos Aires, a capital argentina, é um dos exemplos mais conhecidos dessa influência. No fim do século XIX e no início do século XX, ela passou por uma intensa transformação urbana inspirada em Paris. Grandes avenidas, parques, edifícios públicos e construções em estilo francês fizeram parte de um projeto que visava aproximá-la dos modelos europeus. A presença espanhola pode ser observada em diversos centros históricos espalhados pela América Latina, com sua organização marcada por praças centrais, igrejas e edifícios administrativos dispostos segundo padrões urbanos do período colonial. A Revolução Industrial inglesa inspirou projetos ferroviários, portuários e industriais em diversos países, enquanto o urbanismo francês tornou-se referência para cidades que buscavam modernização e planejamento urbano. “As cidades funcionam como documentos históricos. Quando observamos Buenos Aires, por exemplo, percebemos claramente referências francesas. Da mesma forma, inúmeras cidades latino-americanas preservam vestígios da ocupação espanhola. A paisagem urbana revela essas conexões históricas”, destaca Lopes.
Cultura que ultrapassa fronteiras
Mesmo após deixarem de disputar territórios, esses países continuaram a competir pela influência cultural. A França consolidou-se como referência mundial em gastronomia, moda, cinema e artes; a Inglaterra transformou sua produção científica, literária e musical em patrimônio global; a Espanha difundiu tradições que permanecem presentes em diferentes regiões do mundo; e a Argentina projetou internacionalmente manifestações como o tango, a literatura de autores como Jorge Luis Borges e, mais recentemente, o futebol como elemento de identidade nacional.
Essa circulação de ideias também foi impulsionada pelos movimentos migratórios. Entre os séculos XIX e XX, milhões de europeus deixaram a Espanha, a França e outros países em direção à Argentina, contribuindo para transformar Buenos Aires em uma das cidades mais cosmopolitas das Américas. “Nem toda influência vem do emprego da força. Muitas vezes ela se dá por meio da cultura, da arte, da educação e da circulação de pessoas. Esses países construíram relações que ultrapassam os conflitos militares”, explica o especialista em Geografia.