
No dia 30, a Terreira da Tribo promove um show comemorativo com a presença de Carlos Patrício e de músicos que estiveram presentes nas carreiras de ambos os compositores
Dois álbuns representativos do que há de mais alternativo na música gaúcha serão relançados nas principais plataformas digitais de música em maio: Vertente, de Carlos Patrício, lançado em vinil em 1986, e Quem Tem Boca é Pra Cantar, de Zé da Terreira, lançado em 2002. Duas raridades da produção fonográfica independente – o LP Vertente teve uma tiragem única de 900 discos, dos quais foram distribuídos cerca de 850 exemplares, e o CD Quem Tem Boca é Pra Cantar, produzido com financiamento do Fumproarte, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, teve tiragem única de 1.000 cópias, totalmente esgotada
No dia 30 de maio, sábado, às 20h, na Terreira da Tribo, será realizada uma noite em homenagem ao Zé da Terreira e também de lançamento deste projeto. O show Quem tem boca é pra cantar, terá as presenças dos músicos e amigos que participaram do álbum, entre eles, Carlos Patrício, Nelson Coelho de Castro, Zé Caradípia, Mário Falcão, Zé Ramos e Johann Alex de Souza. O ingresso para o show será contribuição espontânea do público. A noite também marcará o lançamento o livro Zé da Terreira ou o Evangelho da Arte Segundo o Trovador Saltimbanco de Johann Alex de Souza publicado pelo selo Ói Nóis Na Memória.
Amigos e parceiros desde os anos 80, as trajetórias de Carlos Patrício e Zé da Terreira se misturam e se entrelaçam em aventuras musicais, shows, gravações e na convivência mantida entre idas e vindas de Porto Alegre a São Paulo, e vice-versa, nas últimas quatro décadas. Em 1992, Zé da Terreira passou seis meses em São Paulo, hospedado na casa de Carlos Patrício. Nesse curto período, realizaram apresentações e participaram do Encontro de Teatro de Rua de Campinas. A partir dessa convivência e inspirado na atuação e no canto do Zézão, Carlos Patrício compôs a marchinha Quem Tem Boca é Pra Cantar. Em 1994, Carlos Patrício esteve em Porto Alegre para a gravação do disco Subvertendo, que contou com a participação de Zé da Terreira, com improvisos vocais na marchinha inspirada por ele. Em 2002, foi a vez de Zé da Terreira gravar a marchinha que dá título ao álbum Quem Tem Boca é Pra Cantar e inclui outras duas composições de Carlos Patrício, como Sol-Luar do Mar-Sertão e República das Bananas, em parceria com Johann Alex de Souza. Em 2016, Carlos Patrício inicia o projeto Revertério, reunindo amigos e parceiros da música e da poesia, e que vem realizando quase que anualmente em espaços alternativos de Porto Alegre e Viamão, tendo Zé da Terreira como uma das mais constantes participações desde a primeira edição, inclusive no Revertério/2024, realizado no Clube de Cultura, 15 dias antes da sua passagem para outro plano.
Carlos Patrício surgiu na música gaúcha após participação polêmica no VII Festival Musipuc, em 1980, com a música experimental Vertente, um poema concreto cantado/gritado com acompanhamento de ruídos, gritos, apitos e som de água em uma bacia. Após a realização dos shows Aleph no Unimúsica e A Outra Face da Lua, com Alexandre Vieira e Johann Alex de Souza, apresentado no Auditório da Aliança Francesa, em 1984 partiu para a realização do sonho de gravar Vertente. Dez anos mais tarde, em 1996, lançou Subvertendo, com as participações de Alexandre Vieira, Mário Falcão, Johann Alex de Souza, Quinca Vasconcellos e Zé da Terreira. Participou como compositor e intérprete dos álbuns Chacarera Blues (2005) e Novo (2017), de Alexandre Vieira. Na esteira dos encontros poético-musicais Revertério, em 2024 lançou o álbum Revertério, com as participações especiais de Sebastián Jantos, Mário Falcão, Pablo Lanzoni, Michelle Cavalcanti, Marcelo Delacroix, Johann Alex de Souza, Quinca Vasconcelos e Alexandre Vieira (póstuma).
O “cantor e atormentado”, como se declarava José Carlos Peixoto, morou no Rio de Janeiro no final dos anos 1970 e início da década de 1980, onde atuou no grupo Tá na Rua, sob a direção de Amir Haddad, participou da primeira montagem no Brasil do musical Hair e apresentou-se em programas de calouro como a Discoteca do Chacrinha. Retornando a Porto Alegre em 1985, ligou-se ao Grupo Ói Nois Aqui Traveiz, atuando em peças e performances de rua. Foi batizado com o nome artístico Zé da Terreira por Johann Alex de Souza. Passando a dedicar-se mais ao ato de cantar, realizou apresentações e gravações ao lado de Alexandre Vieira, Mário Falcão, Carlos Patrício e Johann Alex de Souza. Realizou os shows Cézio 137, Zé Canta Brecht e África-Brasil, e em 2002 lançou o disco Quem Tem Boca é Pra Cantar, além de participações no disco Subvertendo, de Carlos Patrício e Chacarera Blues, de Alexandre Vieira. Zézão, como também era conhecido, atuou ainda junto ao Grupo de Teatro de Rua Oficina Perna de Pau e participou do Bloco da Laje. Uma das últimas atuações de Zé da Terreira foi com a peça Cartagena, dirigida por Carlos Pinto, apresentada inúmeras vezes em espaços de rua em Porto Alegre. Através das atuações em peças, shows e principalmente em performances e intervenções realizadas nas ruas, praças e parques de Porto Alegre, tornou-se uma figura popular, marcada pelo carisma e enorme capacidade de improviso que demonstrava em apresentações de teatro e música.
Sobre os discos que serão relançados em maio de 2026
O LP Vertente, que reúne dez composições de Carlos Patrício, gravado entre outubro de 1984 e março de 1985, está completando 40 anos do lançamento oficial realizado na Cia de Artes de Porto Alegre em dezembro de 1986. A gravação do disco só foi possível graças a uma espécie de “financiamento coletivo” utilizado na época: a emissão de bônus de compra antecipada do disco, quando forma vendidos 220 bônus, e também devido a apoios recebidos de entidades públicas e privadas como DCE/UFRGS, Prefeitura de Charqueadas e Câmara de Vereadores de Porto Alegre. A produção musical do LP foi compartilhada com Alexandre Vieira e contou com as participações especiais de Felipe Franco em É Poesia, Johann Alex de Souza em Procura e do Grupo Voz Ativa em Lenga-Lenga. Participaram das gravações os músicos Alexandre Vieira (violão, violão 12 cordas e flauta-doce), Zé Ramos (violão e guitarra), Norberto Farina (baixo), Marcelo Piraino (flauta e clarinete), Paulo Ricardo Araújo (percussão), Chico Gomes (trompete), Caco Silva (percussão), Gustavo Heberle (baixo), Antônio Ricardo (acordeon) e Karen Agra e Marta Collares nos vocais.
Quem Tem Boca é Pra Cantar foi lançado em 2002, através do Fumproarte, da Prefeitura de Porto Alegre, com a produção musical de Zé Ramos, sendo o único trabalho musical fonográfico realizado por Zé da Terreira. Nesse álbum Zé gravou predominantemente autores gaúchos, com canções de Carlos Patrício, Johann Alex de Souza, Mário Falcão, Zé Carapídia e Nelson Coelho de Castro, e o samba Camilinha de sua autoria, incluindo também os sambas Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico e Xingú, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. O álbum teve participação especial de Zé Caradípia, Mário Falcão e do grupo Café Acústico, e contou com o trabalho dos músicos Zé Ramos, Alexandre Vieira, Ricardo Arenhaldt, Fabiane Oliveira, Karlo Kulpa, João 7 Cordas, Vinicius Prates, Leandro Maia, Caio Gomes, Felipe Karan, Julio Rizzo, Marcelo de Paula, Loni Seiva, Mário Falcão, Nico Bueno, Luciano Allgayer, Carlos Eduardo Falcão e Bateria da Escola de Samba Carecões e Alemães e com as vozes de Luciana Marcon e Ana Fuão nos corais.
Vertente e Quem tem Boca é Pra Cantar
Relançamento dos álbuns de Carlos Patrício e Zé da Terreira
Vertente, de Carlos Patrício – dia 24 nas plataformas
Quem Tem Boca é Pra Cantar, de Zé da Terreira – dia 30 nas plataformas
30 de maio, às 20h – Show de lançamento dos discos
Terreira da Tribo – Avenida Pátria, 98
Contribuição espontânea
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