
Procura por temperaturas mais amenas, como destinos de serra e “frio simulado”, ganham força, como explica o coordenador de Gestão de Turismo da UNIASSELVI
O verão brasileiro, historicamente sinônimo de sol e praia, está passando por uma reconfiguração forçada pelo termômetro. Com 2024 registrando as maiores temperaturas da série histórica e o verão 2024/2025 consolidando-se como um dos mais quentes já vistos, o “fator térmico” tornou-se protagonista na hora de planejar a viagem. Segundo Rodrigo Borsatto, coordenador do curso de Gestão em Turismo da UNIASSELVI, o calor extremo está criando um novo perfil de viajante: aquele que busca o “refúgio climático”.
Embora o litoral ainda lidere as preferências, respondendo por 44,6% das motivações de lazer, segundo o IBGE, a dominância absoluta das praias começa a dar sinais de descentralização. “O brasileiro tem passado a evitar destinos onde a sensação térmica superior a 40°C é constante. Também tem considerado viajar em meses de transição, olha com mais cuidado para destinos de altitude ou de clima mais ameno e valoriza hospedagens com conforto térmico, áreas verdes e boa ventilação”, explica o docente.
O fator bem-estar e o risco climático
O comportamento mudou primeiro entre famílias com crianças, idosos e pessoas com saúde sensível. Borsatto comenta que esse público foi o primeiro a ajustar esse comportamento e afirma que “a tendência é que isso se espalhe”.
Para o especialista, o clima deixou de ser apenas o “cenário” para se tornar um fator de risco ou bem-estar. Essa mudança pressiona destinos tradicionais a se adaptarem. “O litoral continua central, mas o calor extremo tende a reorganizar horários, calendário e até o tipo de experiência, com mais atividades ao amanhecer e fim de tarde, maior procura por sombra, água fresca, ambientes climatizados, e um interesse crescente em viajar para a costa fora do auge do verão, em meses com temperaturas mais suportáveis”, ressalta o professor.
A ascensão da serra e do “frio simulado”
Enquanto as capitais fervem, destinos serranos na região sul e sudeste enxergam uma oportunidade de ouro para combater a sazonalidade. Tradicionalmente procuradas no inverno, cidades de clima ameno podem absorver a demanda reprimida do verão, desde que invistam em infraestrutura e novo posicionamento. Assim, destaca-se o “turismo de experiência”, onde trilhas, cachoeiras, enoturismo e gastronomia são as apostas para atrair quem quer fugir do mormaço litorâneo.
Também tem crescido o “entretenimento gelado”, com atrações como “bares de gelo” e parques de neve artificial, como um “alívio lúdico”. “Ao mesmo tempo em que oferecem alívio térmico, entregam algo inusitado, ‘instagramável’, que vira história para contar”, pontua Borsatto.
Impactos econômicos e adaptação
A economia do turismo deve sentir o reflexo dessa migração. Para os destinos de frio, o movimento pode gerar uma “segunda alta temporada”, ampliando o número de diárias, o faturamento em hospedagem, gastronomia, vinícolas e atrativos, e gerando mais empregos diretos e indiretos.
Já para o litoral, o desafio é a resiliência, com investimentos em adaptação da infraestrutura urbana, proteção de orlas, drenagem, áreas verdes e sombreamento, uma vez que há maiores chances de interrupção das atividades por eventos extremos, como enchentes, ressacas e tempestades mais intensas. “Em contrapartida, se esses destinos conseguirem alongar a temporada para meses menos críticos, podem atenuar a dependência de um verão cada vez mais instável”, enfatiza Borsatto.
“Estudos na área do turismo e mudanças climáticas vem alertando que o setor é altamente vulnerável ao aquecimento global, mas também pode ser um dos campos com maior capacidade de adaptação e inovação, desde que haja políticas públicas, planejamento territorial e estratégias empresariais alinhadas à agenda climática. Nesse caso, destinos que se anteciparem, ajustarem seus produtos e investirem em sustentabilidade e conforto térmico tende a ganhar competitividade; quem continuar operando como se o clima fosse o mesmo de décadas atrás corre o risco de perder atratividade e receita num futuro não tão distante”, conclui.
Sobre a UNIASSELVI
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