
Exposição parte de uma investigação sobre ancestralidade indígena e transforma viagem, memória e mistério em experiência expográfica
De onde vem seu olho puxado?
A pergunta atravessou a infância, a adolescência e a vida adulta de Ciana Brandão. Uma curiosidade recorrente que, por muitos anos, parecia banal. Até que deixou de ser.
“A gente é muita gente”, primeira exposição individual da artista, que abre no dia 17 de março na Funarte, em Belo Horizonte, nasce dessa fricção entre pergunta e silêncio. Entre o que se sente e o que não se sabe. Entre a história individual e o projeto de nação que a atravessa.
Iniciada em 2021, a pesquisa parte da investigação da ancestralidade materna da artista, recorrendo à uma metodologia preenchida de Realismo Fantástico onde espiritualidade, rituais indígenas, tarot, búzios e toda a ordem de mistério se alinhou à busca documental em cartórios e paróquias; no cruzamento de documentos históricos, certidões de óbito, nascimento e casamento, nas fotografias guardadas que foram reveladas em contações de histórias com parentes no lanche da tarde. Tudo isso, levou a artista a fabular o passado e reconhecer em sua história o projeto de miscigenação e apagamento histórico dos povos originários na construção da sociedade. Uma história que ajuda a contar a de todos nós.
Em julho de 2025, Ciana percorreu, ao lado da filha e da tia, um trajeto que refaz 150 anos, viajando por 1.300km o sudeste do Brasil em deslocamentos familiares: por Minas Gerais em Belo Horizonte, Ouro Preto, Juiz de Fora; no Rio de Janeiro em Paraíba do Sul e Barra do Piraí, rumo à São Paulo na região de Pindamonhangaba, Santo Antônio do Pinhal e São Luiz do Paraitinga, revelando sua origem na Serra da Mantiqueira, no entre-lugar dos três estados. A viagem reorganizou sua compreensão de ancestralidade. Não apenas pela experiência de retornar aos territórios de origem, mas como tempo circular: de um lado, investigava na companhia da filha de oito anos; do outro, a revelação de uma ancestral criança da mesma idade arrancada de sua família, de sua língua, de seu território e de sua cosmovisão.
Essa investigação atravessa a exposição, mas não é apresentada de maneira linear. Com curadoria de Leonardo Alves, a mostra articula pintura em vidro, instalação, vídeo-performance e ateliê aberto como campos de experiência. O visitante não recebe um relato fechado, mas é convocado a atravessar um ponto de vista.
A escolha do vidro como suporte central é recorrente na trajetória da artista, formada pela Escola Guignard (UEMG) e pelo CEFART, com passagem pela Universidade do Porto em Portugal e pela escola Abatti Zanetti em Murano, na Itália. Transparência, suspensão e instabilidade são elementos que tensionam o visível e o invisível. Ao pintar com tinta gráfica e óleo sobre vidro, Ciana cria imagens que se alteram conforme a aproximação do olhar — macro e micro coexistem, como memória e história.
Durante o período expositivo, o público também terá acesso ao ateliê da artista montado dentro da Funarte, onde documentos, anotações e referências históricas aparecem como pistas de uma investigação que não se encerra na obra.
A abertura, no dia 17 de março, inclui performance marcada pela presença da fogueira como gesto ritual. A artista convida o público a presenciar a reunião de sete gerações em volta do fogo pela celebração de vida e morte da ancestral mais antiga localizada durante a pesquisa. A data coincide com os 90 anos de sua morte, falecida em 17 de março de 1936, segundo certidão localizada pela artista. A performance contará com interpretação em LIBRAS.
A construção da exposição mobiliza uma rede de colaboradores que atravessam diferentes linguagens e tempo. Artistas como o curador Leonardo Alves, Vitor Lagoeiro; da cineasta Letícia Ferreira e o compositor Thiago Diniz que assinam o vídeo performance, bem como o arte educador Lyon Goulart e a mediadora de mistério Akino Takeda são artistas que colaboram com Ciana há mais de dez anos. Assim, admiração e afeto se conectam ao encontro de outros artistas importantes como Idylla Silmarovi e Edgar Kanaykõ além da colaboração realizada pela curadora Flaviana Lasan, o historiador Davi Aroeira e do artista Paulo Nazareth durante a pesquisa criando textos sobre a busca da artista.
O projeto também conta com a professora dra. Giulia Giovani, da Escola de Belas Artes da UFMG, convidada para conversar sobre conservação e mídias não convencionais na arte contemporânea. Este é mais um projeto de colaboração da artista com a produtora Bruna Toledo, pelo Grupo Dolores. “Apesar de ser essa a minha primeira exposição individual, fica cada vez menos coerente dizer individual’ quando tantos artistas que admiro estão junto comigo construindo essa exposição”
A trajetória de Ciana também é marcada pela articulação entre arte e maternidade. Fundadora do Movimento Arte na Maternidade, a artista desenvolve residências voltadas a artistas mães na primeira infância, espaço onde retomou o vidro como matéria e aprofundou a pergunta que estrutura a exposição: qual é o ponto de vista que me constitui como artista?
Realizada por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte (0134/2024) e produção do Grupo Dolores e Ateliê Ciana, “A gente é muita gente” permanece em cartaz até 28 de março. Após a temporada na Funarte, o projeto terá itinerâncias no segundo semestre e lançamento de catálogo virtual.
Mais do que responder à pergunta sobre a origem dos olhos, a exposição devolve outra ao público: de qual Brasil viemos?
Serviço
O que? A gente é muita gente – 1ª exposição individual de Ciana Brandão
Onde? Funarte – Rua Januária, 68 – Centro – Belo Horizonte
Quando? 17 a 28 de março de 2026
Visitação: 18 a 28/03, das 11h às 21h
Entrada gratuita
Abertura: 17/03, a partir das 19h
Performance: 20h (com LIBRAS)
Encerramento: 21h30
21/03 – 19h
Roda de conversa com Leonardo Alves e artistas convidados (com LIBRAS)
27/03 – 19h30
Roda de conversa com Giulia Giovani
Tema: Restauração e arte contemporânea
Projeto 0134/2024 – Lei Municipal de Incentivo à Cultura
Produção: Grupo Dolores e Ateliê Ciana