{"id":39248,"date":"2026-02-18T06:09:40","date_gmt":"2026-02-18T09:09:40","guid":{"rendered":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/?p=39248"},"modified":"2026-02-20T22:12:37","modified_gmt":"2026-02-21T01:12:37","slug":"como-o-arroz-vermelho-voltou-ao-centro-da-mesa-em-minas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/como-o-arroz-vermelho-voltou-ao-centro-da-mesa-em-minas\/","title":{"rendered":"COMO O ARROZ VERMELHO VOLTOU AO CENTRO DA MESA EM MINAS"},"content":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, o arroz branco dominou as mesas brasileiras, enquanto outras variedades quase desapareceram. Entre elas, o arroz vermelho, gr\u00e3o de origem asi\u00e1tica trazido pelos portugueses no per\u00edodo colonial, que se adaptou ao semi\u00e1rido brasileiro, mas foi progressivamente deixado de lado por quest\u00f5es de produtividade e mercado.<\/p>\n<p>Hoje, ele volta a ganhar espa\u00e7o em cozinhas que valorizam territ\u00f3rio, mem\u00f3ria e cadeia produtiva. Em Minas Gerais, esse movimento aparece com for\u00e7a em Belo Horizonte e na Lapinha da Serra, por meio do trabalho de tr\u00eas chefs: Agnes Farkasvolgyi, Ju Duarte e Marina Leite.<\/p>\n<p>Pesquisa, mem\u00f3ria e perman\u00eancia<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da chef Agnes Farkasvolgyi com o arroz vermelho come\u00e7ou h\u00e1 cerca de 20 anos, quando participou de uma pesquisa com o Slow Food sobre a Arca dos Alimentos, iniciativa voltada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de ingredientes amea\u00e7ados de desaparecer.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, ela se aprofundou na origem do gr\u00e3o e em sua trajet\u00f3ria no Brasil. \u201cForam os portugueses que trouxeram, mas ele tem origem asi\u00e1tica. Se adaptou bem ao nosso clima, mas foi sendo substitu\u00eddo pelo arroz branco, que interessava mais aos colonizadores\u201d, relembra.<\/p>\n<p>O interesse por variedades menos convencionais cresceu ao longo dos anos, impulsionado tamb\u00e9m pela curiosidade de consumidores. A textura firme do arroz vermelho, caracter\u00edstica que Agnes valoriza, fez com que ele passasse a integrar sua cozinha de forma permanente h\u00e1 cerca de 15 anos.<\/p>\n<p>Em 2025, no card\u00e1pio do restaurante Min\u00e9ra, na Casa Cor, o gr\u00e3o ganhou destaque em um prato que se tornaria assinatura: arroz caldoso com bochecha de porco, costelinha defumada, ora-pro-n\u00f3bis e bacon caramelado. A receita entrou definitivamente no repert\u00f3rio do bistr\u00f4 e dos eventos da chef.<\/p>\n<p>Um gr\u00e3o que conta hist\u00f3rias<\/p>\n<p>Na Cozinha Santo Ant\u00f4nio, em Belo Horizonte, o caminho do arroz vermelho passa pela curiosidade e pelo questionamento. Ju Duarte come\u00e7ou a se perguntar sobre a presen\u00e7a do arroz na alimenta\u00e7\u00e3o brasileira, considerando que milho e mandioca sempre foram as bases da dieta no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nesse processo, encontrou o arroz vermelho como uma das primeiras variedades consumidas no pa\u00eds, antes de ser \u201cengolido\u201d pelo arroz branco. \u201cEntendo que ele \u00e9 um alimento que conta uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ju conheceu o gr\u00e3o em 2019 por meio de Tom Z\u00e9, pai da chef Marina Leite, do Casulo, que lhe apresentou a produ\u00e7\u00e3o na Lapinha da Serra. Depois, ela tamb\u00e9m teve contato direto com agricultores de Jaboticatubas.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o ingrediente passou a fazer parte de sua cozinha. Hoje, ele \u00e9 protagonista do prato Terra \u00e0 Vista, preparado com arroz puxado no tomate, legumes da esta\u00e7\u00e3o e cogumelos. De perfil vegano, a receita valoriza o sabor amendoado do gr\u00e3o e sua apar\u00eancia marcante. O nome dialoga com a ideia de descoberta do Brasil.<\/p>\n<p>A primeira vez que Ju cozinhou o arroz vermelho foi no Festival Fartura, em 2019, quando apresentou uma releitura do Mexeriboca, prato citado em relatos do viajante Richard Burton, que reunia arroz, galinha, porco e feij\u00e3o.<\/p>\n<p>O arroz da Lapinha como identidade<\/p>\n<p>Na Lapinha da Serra, o Casulo transformou o arroz vermelho em eixo central do seu projeto. Especialista em risotos, Marina Leite sempre desejou trabalhar com o gr\u00e3o cultivado por fam\u00edlias tradicionais do povoado.<\/p>\n<p>O desafio inicial foi adaptar a t\u00e9cnica e conquistar o p\u00fablico. Por ser um gr\u00e3o integral, o arroz vermelho se comporta de forma diferente do arb\u00f3reo. Foram muitos testes at\u00e9 alcan\u00e7ar o ponto ideal.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, o cliente podia escolher entre os dois tipos. Depois, o restaurante passou a sugerir combina\u00e7\u00f5es: ingredientes locais vinham acompanhados do arroz vermelho, enquanto insumos externos eram servidos com o arb\u00f3reo.<\/p>\n<p>Com o tempo, e \u00e0 medida que as hist\u00f3rias por tr\u00e1s dos pratos eram compartilhadas, a aceita\u00e7\u00e3o cresceu. O passo seguinte foi definitivo: abandonar o arroz importado.<\/p>\n<p>\u201cFoi o momento de substituir o arb\u00f3reo pelo nosso \u2018arroz de quintal\u2019, mais saboroso, nutritivo e fruto da agricultura familiar\u201d, explica Marina.<\/p>\n<p>Mesmo sendo um gr\u00e3o rico em amido, foi preciso desenvolver t\u00e9cnicas espec\u00edficas para alcan\u00e7ar cremosidade, sem perder valor nutricional nem identidade.<\/p>\n<p>Hoje, o arroz vermelho \u00e9 a base da cozinha do Casulo. Ele estrutura um card\u00e1pio centrado em produtos locais, valoriza o territ\u00f3rio da Lapinha e prop\u00f5e um caminho oposto aos insumos industrializados.<\/p>\n<p>Mais do que uma tend\u00eancia, sua presen\u00e7a revela um movimento consistente de valoriza\u00e7\u00e3o de ingredientes brasileiros e de cadeias curtas. Um retorno \u00e0s origens que ajuda a redesenhar a rela\u00e7\u00e3o entre campo, cozinha e cidade.<\/p>\n<p>A Casa da Agnes<\/p>\n<p>Rua Paulo Afonso, 833 \u2013 Santo Ant\u00f4nio, Belo Horizonte<\/p>\n<p>Almo\u00e7os: ter\u00e7a a s\u00e1bado, de 12h \u00e0s 15h<\/p>\n<p>Eventos fechados para at\u00e9 60 pessoas<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es e delivery: (31) 98738-7066<\/p>\n<p>@acasadaagnes<\/p>\n<p>Cozinha Santo Ant\u00f4nio<\/p>\n<p>Rua S\u00e3o Domingos do Prata, 453 \u2013 Santo Ant\u00f4nio, Belo Horizonte<\/p>\n<p>Funcionamento:<\/p>\n<p>Ter\u00e7a a sexta, das 12h \u00e0s 15h<\/p>\n<p>S\u00e1bados, domingos e feriados, das 12h30 \u00e0s 17h<\/p>\n<p>Quintas e sextas, das 19h \u00e0s 23h<\/p>\n<p>@cozinhasantoantonio<\/p>\n<p>Casulo \u2013 Restaurante e experi\u00eancias<\/p>\n<p>Rua Olhos d\u2019\u00c1gua, 01 \u2013 Lapinha da Serra, Santana do Riacho<\/p>\n<p>Funcionamento: ter\u00e7a a domingo<\/p>\n<p>Reservas e informa\u00e7\u00f5es: (31) 98408-0368 | casulolapinhadaserra@gmail.com<\/p>\n<p>Instagram: @casulolapinhadaserra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, o arroz branco dominou as mesas brasileiras, enquanto outras variedades quase desapareceram. 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