{"id":16402,"date":"2025-02-24T13:34:06","date_gmt":"2025-02-24T16:34:06","guid":{"rendered":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/?p=16402"},"modified":"2025-02-24T13:34:06","modified_gmt":"2025-02-24T16:34:06","slug":"em-2025-nos-80-anos-da-morte-de-mario-de-andrade-seus-relatos-da-jornada-amazonica-em-o-turista-aprendiz-revelam-uma-pessoa-a-frente-de-seu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/em-2025-nos-80-anos-da-morte-de-mario-de-andrade-seus-relatos-da-jornada-amazonica-em-o-turista-aprendiz-revelam-uma-pessoa-a-frente-de-seu-tempo\/","title":{"rendered":"EM 2025, NOS 80 ANOS DA MORTE DE M\u00c1RIO DE ANDRADE, SEUS RELATOS DA JORNADA AMAZ\u00d4NICA EM &#8216;O TURISTA APRENDIZ&#8217; REVELAM UMA PESSOA \u00c0 FRENTE DE SEU TEMPO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Maior cl\u00e1ssico brasileiro da literatura de viagem ganha nova edi\u00e7\u00e3o pela Tinta-da-China Brasil, com 14 fotografias tiradas pelo autor e apresenta\u00e7\u00e3o de Flora Thomson-De Veaux<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nestes \u2018apontamentos de viagem\u2019, como dizia meu av\u00f4 Leite Morais, \u00e0s vezes eu paro hesitando em contar certas coisas, com medo que n\u00e3o me acreditem (M\u00e1rio de Andrade, 1927)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade morreu aos 52 anos em 1945. Para os par\u00e2metros do s\u00e9culo XXI, muito cedo. Seu legado, no entanto, \u00e9 digno de uma dinastia. Romances, poemas, ativismo cultural, implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas culturais, um acervo de mais de 30 mil obras, e uma pesquisa etnogr\u00e1fica colhida em dezenas de viagens pelo Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi uma dessas viagens, para a regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, que M\u00e1rio transformou, a princ\u00edpio sem grandes pretens\u00f5es, no maior cl\u00e1ssico brasileiro de literatura de viagem: O turista aprendiz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em O turista aprendiz, M\u00e1rio de Andrade relata a viagem que fez pela Amaz\u00f4nia em 1927 na comitiva da amiga e mecenas Ol\u00edvia Guedes Penteado. A prosa leve, ora reflexiva, ora ir\u00f4nica, sugere um escritor entregue \u00e0 experi\u00eancia e \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do sonho de conhecer o Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Publicado pela primeira vez em 1970, o livro \u00e9 relan\u00e7ado pela Tinta-da-China Brasil, em edi\u00e7\u00e3o que recupera o manuscrito original de 1943, revisto pelo autor, e \u00e9 acompanhado de 14 fotos tiradas com sua &#8220;codaque&#8221; ao longo da viagem e um mapa detalhado do trajeto percorrido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A nova edi\u00e7\u00e3o, organizada e apresentada por Flora Thomson-DeVeaux, diretora de pesquisa da R\u00e1dio Novelo e tradutora do livro para o ingl\u00eas, conta com capa dura e design assinado pela artista portuguesa Vera Tavares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O olhar de aprendiz sobre a Amaz\u00f4nia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma esp\u00e9cie de sensa\u00e7\u00e3o ficada de insufici\u00eancia, de sarapinta\u00e7\u00e3o, que me estraga todo o europeu cinzento e bem-arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. (M\u00e1rio de Andrade, 1927)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viagem aconteceu cinco anos depois da Semana de Arte de 22. M\u00e1rio de Andrade embarcou no Rio de Janeiro rumo a Bel\u00e9m do Par\u00e1. A bordo de um vaticano \u2014 embarca\u00e7\u00e3o a vapor t\u00edpica da regi\u00e3o, que fazia paradas peri\u00f3dicas para abastecimento de lenha \u2014 navegou pelos rios Amazonas, Solim\u00f5es e Madeira, at\u00e9 as fronteiras do Peru e da Bol\u00edvia. Se hoje a Amaz\u00f4nia ainda oferece desafios de acesso aos visitantes, em 1927 uma viagem dessas era uma epopeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os contratempos que todo mundo experimenta quando viaja n\u00e3o faltaram. Ele constata que levou itens errados na mala e para dar conta do calor, decide mandar fazer novas roupas em Bel\u00e9m, de linho branco. O escritor se besunta de repelente para evitar as picadas de uma grande fauna de mosquitos: \u201c\u00e9 um desespero [&#8230;] Pela primeira vez, n\u00e3o resisto e me emporcalho da tal pomada inglesa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem pretens\u00f5es de uma pesquisa etnogr\u00e1fica rigorosa, como faria na sua viagem ao Nordeste no ano seguinte, o autor concentrou em menos de 200 p\u00e1ginas um impressionante manancial de informa\u00e7\u00f5es sobre um Brasil at\u00e9 ent\u00e3o completamente desconhecido. M\u00e1rio aproveita para conversar com a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha, provar frutas como graviola e guaran\u00e1, peixes e pratos t\u00edpicos como salada de abacate, banhar-se nas praias, remar barquinhos e encalhar num banco de areia, cantar ao luar, beber u\u00edsque com \u00e1gua de coco. Ele n\u00e3o poupa a si mesmo, e nem suas companheiras de viagem, em coment\u00e1rios divertidos com seu olhar de \u201caprendiz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma viagem que inspira gera\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos orgulhamos de ser o \u00fanico (grande?) pa\u00eds civilizado tropical\u2026 Isso \u00e9 o nosso defeito, a nossa impot\u00eancia. Dev\u00edamos pensar, sentir como indianos, chins, gente do Benin, de Java\u2026 Talvez ent\u00e3o pud\u00e9ssemos criar cultura e civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias. Pelo menos ser\u00edamos mais n\u00f3s, tenho certeza (M\u00e1rio de Andrade, 1927).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos registros do di\u00e1rio de viagem, revela-se a personalidade e o senso de humor de M\u00e1rio. O tom \u00edntimo por vezes lembra a correspond\u00eancia do escritor, que ao lado desses di\u00e1rios de viagem tem ganhado destaque nas \u00faltimas d\u00e9cadas, n\u00e3o apenas pela import\u00e2ncia documental, mas por seu alto valor liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Consagrado como um cl\u00e1ssico da literatura de viagem no Brasil, O turista aprendiz \u00e9 um dos livros mais referenciados de M\u00e1rio de Andrade. Ele vem frequentando cabeceiras de diversas pessoas atrav\u00e9s de d\u00e9cadas, e influenciando artistas para al\u00e9m das letras. O t\u00edtulo d\u00e1 nome ao document\u00e1rio da fot\u00f3grafa Maureen Bisilliat, em 1979; a uma cole\u00e7\u00e3o de roupas do estilista Ronaldo Fraga em 2010; e ao longa-metragem de fic\u00e7\u00e3o de Murilo Salles, exibido na 48\u00aa Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m serviu de base para a constru\u00e7\u00e3o do samba-enredo da escola de Samba Mocidade Alegre em 2024 \u2014 ano em que a agremia\u00e7\u00e3o se consagrou campe\u00e3 do Carnaval paulista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O entusiasmo do escritor com o pa\u00eds e a diversidade de suas culturas e paisagens nos d\u00e3o f\u00f4lego para encarar os dilemas culturais, pol\u00edticos e sociais que o Brasil vive hoje. Como destaca Flora Thomson-DeVeaux em sua apresenta\u00e7\u00e3o, O turista aprendiz n\u00e3o \u00e9 apenas um documento liter\u00e1rio, mas tamb\u00e9m um testemunho da aposta de M\u00e1rio de Andrade na cultura como uma chave para enfrentar os impasses do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A leitura de O turista aprendiz ganha nova relev\u00e2ncia no cen\u00e1rio contempor\u00e2neo, em que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 no centro das discuss\u00f5es sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, desmatamento e sustentabilidade. Um cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre Flora Thomson-DeVeaux<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 escritora, tradutora e pesquisadora. Traduziu para o ingl\u00eas Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, de Machado de Assis, e O turista aprendiz, de M\u00e1rio de Andrade. \u00c9 diretora de pesquisa da R\u00e1dio Novelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobre a Tinta-da-China Brasil<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma editora de livros independente, sediada em S\u00e3o Paulo, gerida desde 2022 pela Associa\u00e7\u00e3o Quatro Cinco Um, organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos. Sua miss\u00e3o \u00e9 a difus\u00e3o da cultura do livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ficha T\u00e9cnica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O turista aprendiz<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ISBN: 9786584835306<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Formato: 14 x 19,5 x 2,3<\/p>\n<p>N\u00famero de p\u00e1ginas: 224 p\u00e1ginas<\/p>\n<p>Pre\u00e7o: R$ 129,90<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Maior cl\u00e1ssico brasileiro da literatura de viagem ganha nova edi\u00e7\u00e3o pela Tinta-da-China Brasil, com 14 fotografias tiradas pelo autor e apresenta\u00e7\u00e3o de Flora Thomson-De &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16404,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-16402","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","latest_post"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16402"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16402\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16405,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16402\/revisions\/16405"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilpimentel.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}